Reluta, repensa, respira

10.05.2019

 

 

Sentei naquele último degrau para tentar encontrar. O relógio marcava seis da tarde de um céu azul celeste. Fevereiro, bem me lembro. Quando dei por conta, via as pessoas correndo atrás de suas próprias vidas - e ali permanecia imóvel – tentando descobrir uma direção. Mal desviada o olhar. Não pense que por devaneio esqueci o caminho de casa, pois decorei ruas, números e esquinas. Só não sabia o que esperar. Aquele “... e SE” doía por dentro. Doía em lugares que nem sabia que existiam. Jamais esperei que fosse assim, quisera ser tudo mais simples, um céu bonito, sorriso no rosto, oito números no telefone e uma garrafa de vinho aberta para duas taças. Chorei alguns dias - uns quatro talvez - os outros apenas sobrevivi. Liguei para uns amigos, e um me atendeu com uma voz doce de quem sofre junto e serve um café na mesa. Tem voz que parece abraço. Lembro bem daquela que me dizia firmemente “está tudo bem” - e está - mesmo que achemos que as ondas irão nos levar, que não vai dar pé ou que a noite não vai terminar. Vai sim. De repente em meio ao desespero aparece uma mão que nos puxa de volta à superfície. Reluta, repensa, respira. Respirei outra vez. Recordo-me do ar entrando novamente, de me sentir aquecida. A vida tem desses caminhos difíceis, cheios de tralha, malmequer e despedidas. Dias que não se acredita em mais nada, nem nas pessoas, nessa existência ou no amor. Há dias que se vive de fragmentos recolhendo pedacinhos por aí. Mas está tudo bem, os olhos irão descansar no fim das contas e se abrir no dia subsequente. Reluta, repensa, respira. Os dias passam assim mesmo, um após o outro. E de novo. E de novo. E mais uma vez. Tempos em tempos é preciso uma mão que te puxa para se reerguer e voltar a voar, outra hora consegue com a força que resta por dentro e nem sabia. Isso é existir, um sopro no vácuo, a incerteza do que virá no dia seguinte. Se virão dias seguintes. Se. Se virá um depois, um amanhã. E está tudo bem, mas telefone hoje, manda bom dia hoje, reme hoje. Arregace as mangas, ergas os braços e agradeça. Reluta, repense, respira. É o que me lembro daquele dia que sentei sob o céu azul celeste, num último degrau para tentar encontrar o caminho pra vida disfarçado de um caminho pra casa... e encontrei você.   

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now