Relicário

27.09.2018

 

 

3am. 


Logo bateu aquela sensação. Aquilo não aconteceria outra vez. Estaria então destinada a procurar alguém como você. Buscando a todo custo algum rosto semelhante ao teu. Haveria outras bocas, novos cheiros, abraços sem muito toque, copos divididos, músicas dedicadas, mensagens de bom dia, um cabelo tão bonito quanto, mas de outra cor. Ou não. Outros vínculos. Novos astros.

Acordarei em outras camas, ah, com certeza acordarei, mas nenhuma como a sua. Dobrarei esquinas, viajarei o mundo com o sentimento de te ter por perto ou ter esquecido alguma coisa em casa.  Aquela sensação de que não teria um novo querer como esse. Não que seja descrente, pessimista ou melancólica.  Apenas considero pouco provável conhecer outro toque como o seu, um toque aqui dentro.

 

Quem nos olha de cima, eu de preto, você de cinza. Quem nos olha de longe, não imagina como é confortável, agradável, quente e nosso. Não crê como meu corpo conhece o teu no íntimo e no limite. Nua e entregue. Quem nos vê de longe, com olhos rasos, não pressupõe que tira meu sono, me vira do avesso e faz lembrar todas as vezes que vi seus olhos num fio de luz. Tua boca na minha. Todas as barbáries que dividimos enquanto nos embebedávamos de vinho e suor. Como rolamos no chão sem hora de partir. Confessei todos meus segredos, fraquezas e minhas paixões. Meus dias. Meu sim. Broncas. Puxões de orelha e alguns no cabelo rente a nuca.   

Daremos sorte se nos cruzarmos outra vez. Ou talvez tenhamos a sorte de não nos cruzarmos nunca mais. Ficar aquela vaga lembrança de uma coisa boa, que o tempo deixou para trás. Não ver teu rosto envelhecer e sorrir hora ou outra quando ouvir teu nome por aí, mesmo nem sendo você. Ter trinta e dois anos e me recordar como foi acordar ao seu lado. Ouvir uma canção e lembrar teu gosto. Essas coisas gostosas que conservamos na gaveta como amuleto da sorte. Um relicário. Deixar as marcas da partida guardadas como cicatrizes das quais nos orgulhamos, pois vivemos cada uma delas. E como vivemos. Dançamos e rodopiamos por todas elas, feito gente que não tem hora para acordar no dia seguinte.  Feito gente que não pensa e não sente medo, só se entrega. Se toca. Por dentro.   


 

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