Alguma coisa sempre fica

27.09.2018

 

 

 

Como de rotina coloquei café fervendo na caneca e me lembrei de você.  Aquele vapor me invadiu por dentro e me abraçou. Vapor esse que não me queimava mais, mas me trazia uma desordem desmedida. Então fechei os olhos e percorri um caminho de volta. De repente estava tudo escuro. Sem voz, sem toque, sem abrigo. Feito pele exposta ao frio sem cobertor.

Por um bom tempo senti muito pouco ou quase nada, como um corpo adormecido, passado, imóvel.  Percorri o caminho para o trabalho em silêncio de quem precisara digerir o que há por dentro primeiro. Quase me tornei uma dessas pessoas, que pouco falam e não acreditam na vida. Por pouco não me transformei nessas, que superficialmente olham os classificados como se houvesse menor interesse naquele impresso. Que não se apaixona, muito menos se emociona com a música tocando na rádio, não dança e não repara nas fases da lua. Só não sentia mais nada. Já tenho um emprego e quase tudo naquele caderno de jornal não me convém. Por um fio deixei de ler as previsões, checar o correio e o e-mail. Tampouco tinha esperança na vida. Alguns até discaram meu número para verificar se estava tudo bem. E estava. Era só um silêncio para reaprender, desligar o barulho do mundo e ouvir-me um pouco mais.

De  alguma maneira tudo funciona bem - sinto que sim - até voltei a atender os telefonemas, comparecer as festividades e sorrir vez ou outra. Nesse tempo aprendi que alguma coisa sempre fica, e muitas coisas ficaram. Mesmo as menores. “São apenas desencontros, só desencontros” repito comigo mesma como palavras de segurança, salva vidas, para não me afogar no que não disse quando tive oportunidade. Me pego pensando, se seria diferente, se tivesse me dito todas aquelas coisas. Se tivéssemos sido sinceros, sentado e colocado para fora todas as feridas, mágoas, exposto todo cansaço e todo caos interior. Se tivesse dado ao menos a chance de dizer o que havia por dentro e não me deixar submersa em minhas escolhas. Você me disse “vai” e eu fui.
E se tivesse sido diferente? Se a ligação não terminasse? E se?  E se ...   

 

A verdade é que fica e com o tempo já não se percebe. Por menor que seja, isso nos constrói mesmo que demore para entender e aceitar. Cinza ao invés de preto. Eu gostar de verde e você de azul. Seu gosto para doce e o meu ao contrário. A maneira com que colocava sal na comida e como dançava enquanto fervia a água para o café. Quando me irritava de propósito deixando a luz passar pelas cortinas logo cedo.  Todas as vezes que te chamei de volta para cama em meio a uma briga. As músicas que me disse e eu não ouvi. Noites que viramos criando casos, jogando conversa fora, morrendo de rir. Tudo o que não disse também ficou. Todas as vezes que me ligou e não atendi...  Nossos restaurantes, chegadas, partidas, e as horas contadas pra te ver outra vez. O “volto já” que parecia uma eternidade, o calor de um beijo bom, o seu gosto que me invadiu por uma porção de vezes, mesmo depois de tudo. Mesmo depois da partida... alguma coisa sempre fica.    

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