Certas coisas

04.07.2018

 

 

Vinte e três e quarenta da noite. Anotei tudo em minha agenda com a mesma tinta azul de sempre. Tinta essa, que registra meus dias em vinte e poucas linhas desde que tomei corpo. Mesmo que com ela consiga listar coisas como ir ao mercado, ligar para o dentista ou não me esquecer de terminar aquele livro, “certas coisas” tinta nenhuma alcança. Não que economizasse em palavras – até dizem que falo demais – ou que faça delas meu esconderijo. Também não é caso de orgulho - ou egoísmo - por não confessar, ou apenas não ter forças o suficiente para colocar no papel tudo o que é preciso. Só não dá. Existe sempre algo que não somos fortes o bastante para assumir nem a nossa própria sombra. Muito menos deixar em registro, para assim ter que se deparar com tudo aquilo daqui tantos anos. É uma questão de força e cicatrização. Parar de ver aqueles par olhos em qualquer canto. Parar de ver tanta coisa bonita naquela porção de cartas que escrevi e não enviei. Esquecer o número e assim não ligar só pra ouvir sua respiração acompanhada de silêncio ao telefone. Esquecer que chorei três dias abraçada com as minhas próprias pernas. Deter aquele pensamento que certas coisas ainda valem a pena o caminho,  pois não valem. Não vale a ferida aberta, a gastrite nervosa, as noites de insônia rolando no travesseiro. Então toda essa avalanche silenciosa e particular fica, escondidinha, ali no fundo, sentada num canto escuro esperando o momento de vir à tona. E talvez nem venha e por ali fique, andando sobre os cantos, aparecendo vez ou outra, quando me enfraquecer e perder a direção. Como um susto nos agarram e mesmo não tendo coragem de dizer nem em pensamento. Certas coisas  são o que são e não tem explicação. Assim mesmo, rápido, lógico e sem muita discussão. Tudo apenas vai acontecendo e rapidamente me deparo num oceano, mergulhada e dilacerada. Não tem um porquê. O carrossel da vida gira no sentido certo e em um número de voltas exato, que o faça parar exatamente onde precisa – mesmo que nem queira estar ali – mas está, e o sol persiste sob a cabeça e as voltas parecem não ter fim. O carrossel nunca desacelera e continua girando e gi ran do, os olhos se fecham, agarro aquelas barras de ferro desbotadas com tanta força interior, algo que nem sabia que existia... até quase despencar. E o mundo gira, o brinquedo gira e nada o detém. O mundo não estaciona ...  
 

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