Quimera

18.09.2017

 Levantei durante essa noite e fui buscar ar puro na janela. Parecia pesado, denso, e a cabeça - quase sem querer - não me deixou dormir. Levanto pra ver se dá tempo de buscar algo ali fora, onde a vista alcança. Pra ver se você dobra a esquina ou algo assim.

Te esperar nessa noite quente, como quem espera o carteiro pela manhã. Ele sempre vem.

 

A brisa quase fria me leva de volta numa noite que você esteve comigo, aqui dentro. Me lembro bem. Dentro do meu quarto e do meu corpo. Eu que já não sou menina, me submeti por mais de uma vez aos teus desejos. Submissa à suas mãos. E fui. Fui descoberta. Feito noite de lua cheia. Solar como um amanhecer, mas no teu colo. Fui nascente, fui onda, fui anoitecer, quando adormeci quase serena e pude estar em paz. Você se lembra? Encaixados num só. Quente, pausadamente, nos alimentamos de corpo e suor. Daquelas noites que as pernas quase não sustentam o corpo. Dancei sob teus olhos. Você não desviou.  Penetrante, atento e meu.

 

Depois daquela noite, me dediquei a cultivar tudo em minha mente antes de dormir. De como me deixa solta. Dediquei então à você toda minha insônia, quase sempre persistente. Como um coração um pouco menor, com um pedaço faltante. Com um pedido desesperado pra que ouça meus pensamentos.


Mato algumas horas, pra ver se te esqueço. Faço novos planos, como quem nunca te conheceu. Como se pudesse voltar àquela noite que te encontrei e não ter saído de casa. Doce engano. E talvez - no fundo - sairia novamente pra te ver me chamar de menina. Sempre com o “minha” na frente.


É engraçado não saber qual a proporção de importância que a outra pessoa terá em nossas vidas no momento em que as conhecemos. Com você quase pude prever. Era mais que um rosto bonito. Vi alguma coisa nova, que não havia visto em ninguém. Alguém que fez aquela noite mudar todas as outras.


E continuo aqui, quando percebo o sol já veio e mal percebi. Quando me dou por mim, passei a madrugada toda debruçada sobre essa janela pensando, juntando, revivendo cada frase. Cada noite como essa, onde virávamos rindo e nos amando. Só mais essa noite, e tudo bem, vai ficar tudo bem. Quase nua por dentro e por fora, virou rotina perder o sono e a cabeça.

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