A cidade que não se cala

23.03.2017

 

Olho pelo retrovisor e imagino quantas histórias, quantas famílias, quantas vidas em pranto. Quantas feições gritando. Imagino, que muitas não estão felizes por estarem onde estão. Outras, permanecem satisfeitas por estado de inercia. Mergulhadas em um caos sem superfície aparente.

 

Através do meu óculos escuro, tudo observo. Vejo gente se despedindo, se beijando, correndo pra não perder o que parece ser a oportunidade de sua vida. Reflito também se ali, em um daqueles carros, naquela imensidão que parece não ter fim, tem alguma história interessante, daquelas dos livros, que há alguém perdendo hora pra impedir que sua amada vá embora. Se preso naquele congestionamento encontra-se alguém que precisa de um consolo, ombro amigo, enquanto acelera o carro.

 

Também podemos ver as paredes gritando nomes que não me são familiares, exalando rebeldia de um povo que precisa ser ouvido a todo custo. Precisam acreditar num céu azul e sonhos realizados. As árvores parecem tristes por serem apenas parte da decoração de concreto, e o céu continua cinza. Essa cidade em meio ao caos é fascinante e ao mesmo tempo me causa desespero. Asfixia. Ação e reação parece ser comum por aqui, as pessoas sempre estão à espera de algo em sua direção. Legitima defesa no modo automático.

É uma gangorra viciosa de contrastes enormes, que máquina de calcular nenhuma conseguiria resolver. São pessoas a todo tempo gritando o que precisa ser dito através dos rabiscos nas paredes, enquanto o governo tenta calar o moleque que precisa ir pro sinal receber moedas embaixo do sol quente. As vozes ninguém ouve faz tempo.


Essa cidade carrega suas cores que vibram nos muros, nas fachadas, nas esquinas, que melhoram o dia de quem por aqui passa. É uma chance de acreditar que o mundo pode ser diferente. E então, ela gentilmente consola quem está em constante movimento sem perspectiva nenhuma de uma vida com cor e sem fumaça. Caridosa, ela oferece obras de arte pelas ruas que contagiam quem por ali passa.  Gente de todo tipo, nação e humor. Gente que as vezes está tão no automático que nem percebe a moça que lhe estende a mão pra dar o troco. Amor é raro, calor humano é espécie em extinção.


Lugar que parece um organismo vivo, que cresce, que liga as pessoas e as enclausuram num mundo particular. A fumaça que sobe tapando o sol, e a menina que passa sorrindo, e ninguém nem nota. O barulho de uma cidade que grita tanto, que ninguém ouve a voz do seu interior. A diversidade sem igual, trazendo em cada esquina um tipo de comida, de música, de experiência. É gigante, é traiçoeira, e ao mesmo tempo acolhedora. Tem espaço pra todo mundo. Tem sim. O difícil é você não ser o prego a ser sempre martelado, e logo ser engolido pelo sistema.  O difícil é manter a sanidade, sendo um grão de areia em meio a um turbilhão diário, e não ser mais um na multidão... 

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